terça-feira, 5 de fevereiro de 2013
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sábado, 2 de fevereiro de 2013
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Recuperação de Áreas Degradadas
Recuperação de Áreas Degradadas
A preocupação com a reparação de danos provocados pelo homem aos ecossistemas não é recente. Plantações florestais têm sido estabelecidas desde o século XIX no Brasil com diferentes objetivos. Entretanto, somente na década de 1980, com o desenvolvimento da ecologia da restauração como ciência, o termo restauração ecológica passou a ser mais claramente definido, com objetivos mais amplos, passando a ser o mais utilizado no mundo nos últimos anos (Engel & Parrotta 2003). O histórico desta fase, no Brasil, inicia-se em 1862, sendo um dos primeiros trabalhos de restauração florestal na atual Floresta Nacional da Tijuca, município do Rio de Janeiro, visando à preservação das nascentes e regularização do abastecimento público de água (Ver: Pacto para Restauração Ecológica da Mata Atlântica, 2007).
Consideram-se degradadas áreas que apresentam “sintomas” como: mineração, processos erosivos, ausência ou diminuição da cobertura vegetal, deposição de lixo, superfície espelhada...entre outros (SMA 2004). Em 2004 a “Society for Ecological Restoration” - SER publicou “Os Princípios da SER na Ecologia de Restauração” esse guia define a restauração ecológica como uma atividade intencional que inicia ou acelera a recuperação de um ecossistema no que diz respeito a sua saúde, integridade e sustentabilidade. Ecossistemas que requerem restauração têm sido degradados, danificados, transformados ou inteiramente destruídos como resultado direto e indireto das atividades humanas. Adicionalmente, descreve vários passos a serem tomados para o desenvolvimento e o manejo de projetos de restauração ecológica. Dentre as várias atividades a serem realizadas estão: identificar o local e o tipo de ecossistema a ser restaurado; identificar o agente causador da degradação; e identificar se há necessidade de intervenções diretas para a restauração.
Dentro desses princípios foram desenvolvidos vários modelos para a restauração de áreas degradadas, dentre eles:
Condução da Regeneração Natural: restauração através da sucessão secundária, sendo necessário apenas o abandono da área a ser restaurada para que esta, naturalmente, se desenvolva através da regeneração natural (Engel e Parrotta, 2003). No entanto, para que isso ocorra, há a necessidade de superar barreiras para a regeneração natural, como a ausência ou a baixa disponibilidade de propágulos (sementes) para a colonização do local, a falha no recrutamento de plântulas e jovens (predação de sementes e plântulas e/ou ausência de um microclima favorável), falta de simbiontes (micorrizas e rizobactérias) e polinizadores e dispersores. Atualmente o método é um dos indicados para restauração florestal em áreas de preservação permanente pelo Conselho Nacional do Meio Ambiente (Ver: http://www.mma.gov.br/port/conama/).
Plantio por sementes: esta técnica supera uma das barreiras à regeneração natural, pois os propágulos seriam diretamente lançados no local a ser restaurado. Mas o sucesso no emprego desta técnica depende de haver condições mínimas para que ocorra o recrutamento das plântulas e dos juvenis e da manutenção das interações para a funcionabilidade do ecossistema. No Mato Grosso algumas iniciativas demonstram que o método da semeadura direta, ainda que com desempenho não satisfatório para algumas espécies, mostrou-se viável, o que o recomenda como alternativa econômica de restauração florestal (Ver: www. socioambiental.org).
Plantio de mudas: Apesar de ser uma forma mais onerosa de restauração de áreas degradadas, por aumentar as chances de sucesso do desenvolvimento das plântulas e diminuir a perda das sementes, o plantio de mudas de espécies nativas de rápido crescimento apresenta alta eficácia na restauração e com o passar do tempo proporciona o desenvolvimento de espécies vegetais de outros níveis de sucessão e a atração de animais frugívoros dispersores de sementes. Pelo alto índice de sucesso dessa técnica, com a utilização de espécies de rápido desenvolvimento, cerca de um a dois anos após o plantio têm-se áreas onde espécies arbóreas venceram a competição com espécies invasoras herbáceas e gramíneas, através do sombreamento (Cavalheiro et al., 2002).
É possível baratear os custos das atividades de restauro com o plantio de mudas em “ilhas”. O plantio de mudas pode ser feito conforme sugerido por Kageyama e Gandara (2000), as ilhas de alta diversidade são formações de pequenos núcleos onde são colocadas plantas de distintas formas de vida (ervas, arbustos, lianas e árvores). Com a utilização de uma alta diversidade e densidades de espécies arbóreas, essas ilhas serviriam como “trampolins” para restaurar a conectividade entre os fragmentos e auxiliar o processo de restauração de florestas nativas (Kageyama, et al., 2003). Ou ainda, com o plantio de árvores isoladas ou em grupos – de espécies que atraem a fauna, servindo como dispersores de sementes (SMA 2004).
Referências
Cavalheiro, A. L., J. M. D. Torezan e L. Fadelli. 2002. Recuperação de áreas degradadas: procurando por diversidade e funcionamento dos ecossistemas. Páginas: 213-224 em M. E. Medri, E. Bianchini, O. A. Shibatta, e J. A. Pimenta, editores. A bacia do rio Tibagi. Londrina, PR.
Engel, V.L. & J.A. Parrotta. 2003. Definindo a restauração ecológica: tendências e perspectivas mundiais. In: Restauração Ecológica de Ecossistemas Naturais. Páginas: 01-26 em P. Y. Kageyama, R. E. Oliveira, L. F. D. Moraes, V. L. Engel e F. B. Gandara, editores. Restauração Ecológica de Ecossistemas Naturais. Botucatu, SP.
ISA 2009. Fazendas matogrossenses utilizam plantio mecanizado para restaurar APPs. Acesso em: 23-09-2010. www. socioambiental.org.
Kageyama, P. e F. B. Gandara. 2000. Revegetação de Áreas Ciliares. Páginas: 02-24 em R. R. Rodrigues, e H. F. Leitão-filho. Matas Ciliares: Conservação e Recuperação. São Paulo: Editora da USP/ FAPESP, 320 p.
Kageyama, P., F. B. Gandara, e R. E. Oliveira. 2003. Biodiversidade e restauração da floresta tropical. Páginas: 27-48 em P. Y. Kageyama, R. E. Oliveira, L. F. D. Moraes, V. L. Engel e F. B. Gandara, editores. Restauração Ecológica de Ecossistemas Naturais. Botucatu, SP.
MMA 2010. Metodologia para recuperação de APPs. Acesso em: 23-09-2010.www.mma.gov.br/port/conama/noticias.
MMA. 2007. Pacto para Restauração ecológica da Mata Atlântica, 2007. Acesso em 23-09-2010.
SER. 2004 – Princípios da SER International sobre a restauração ecológica.Acesso em 17 -09-2010.http://www.ser.org/content/ecological_restoration_primer.asp.
SMA. 2004. Recuperação florestal: da muda a floresta. Secretaria do Meio Ambiente. Fundação para conservação e a produção florestal do Estado de São Paulo.
Conceitos de Agroecologia
Conceitos de
Agroecologia
Considera-se Agroecologia
como Ciência ou campo de conhecimentos de natureza multidisciplinar, cujos
ensinamentos pretendem contribuir na construção de estilos de agricultura de
base ecológica e na elaboração de estratégias de desenvolvimento rural,
tendo-se como referência os ideais da sustentabilidade numa perspectiva
multidimensional. Adiante destacamos três sínteses conceituais de
renomados Agroecólogos (Altieri, Gliessman, Sevilla Guzmán), seguidas de um
artigo de opinião, com o objetivo de colocar ênfase na natureza científica da
Agroecologia.
1. Agroecologia
Miguel A. Altieri (Universidade da
Califórnia, Campus de Berkley, EUA)
É a ciência ou a disciplina
científica que apresenta uma série de princípios, conceitos e metodologias para
estudar, analisar, dirigir, desenhar e avaliar agroecossistemas, com o
propósito de permitir a implantação e o desenvolvimento de estilos de
agricultura com maiores níveis de sustentabilidade. A Agroecologia proporciona
então as bases científicas para apoiar o processo de transição para uma
agricultura “sustentável” nas suas diversas manifestações e/ou denominações.
2. Enfoque agroecológico
Stephen
R. Gliessman (Universidade da Califórnia, Campus de Santa Cruz, EUA)
O
enfoque agroecológico corresponde a aplicação dos conceitos e princípios da Ecologia
no manejo e desenho de agroecossistemas sustentáveis.
3. Agroecologia e desenvolvimento rural
Eduardo Sevilla Guzmán (Universidade de Córdoba – Espanha)
Agroecologia constitui o
campo do conhecimentos que promove o “manejo ecológico dos recursos naturais,
através de formas de ação social coletiva que apresentam alternativas à atual
crise de Modernidade, mediante propostas de desenvolvimento participativo desde
os âmbitos da produção e da circulação alternativa de seus produtos,
pretendendo estabelecer formas de produção e de consumo que contribuam para
encarar a crise ecológica e social e, deste modo, restaurar o curso alterado da
coevolução social e ecológica. Sua estratégia tem uma natureza sistêmica, ao
considerar a propriedade, a organização comunitária e o restante dos marcos de
relação das sociedades rurais articulados em torno à dimensão local, onde se
encontram os sistemas de conhecimento portadores do potencial endógeno e
sociocultural. Tal diversidade é o ponto de partida de suas agriculturas
alternativas, a partir das quais se pretende o desenho participativo de métodos
de desenvolvimento endógeno para estabelecer dinâmicas de transformação em
direção a sociedades sustentáveis”.
4. Agroecologia: enfoque científico e estratégico (1)
Francisco Roberto Caporal (2); José Antônio Costabeber (3)
De algum tempo para cá, quase
todos nós temos lido, ouvido, falado e opinado sobre Agroecologia. As
orientações daí resultantes têm sido muito positivas, porque a referência à
Agroecologia nos faz lembrar de uma agricultura menos agressiva ao meio
ambiente, que promove a inclusão social e proporciona melhores condições
econômicas para os agricultores de nosso estado. Não apenas isto, mas também
temos vinculado a Agroecologia à oferta de produtos “limpos”, ecológicos,
isentos de resíduos químicos, em oposição àqueles característicos da Revolução
Verde. Portanto, a Agroecologia nos traz a idéia e a expectativa de uma nova
agricultura, capaz de fazer bem aos homens e ao meio ambiente como um todo,
afastando-nos da orientação dominante de uma agricultura intensiva em capital,
energia e recursos naturais não renováveis, agressiva ao meio ambiente,
excludente do ponto de vista social e causadora de dependência econômica.ar Títulos Programa
Por outro lado, e isto é
importante que se diga, o entendimento do que é a Agroecologia e onde queremos
e podemos chegar com ela não está claro para muitos de nós ou, pelo menos,
temos tido interpretações conceituais diversas que, em muitos casos, acabam nos
prejudicando ou nos confundindo em relação aos propósitos, objetivos e metas do
trabalho que todos estamos empenhados em realizar. Apenas para dar alguns
exemplos do mau uso do termo, não raras vezes tem-se confundido a Agroecologia
com um modelo de agricultura, com um produto ecológico, com uma prática ou
tecnologia agrícola e, inclusive, com uma política pública. Isso, além de
constituir um enorme reducionismo do seu significado mais amplo, atribui à
Agroecologia definições que são imprecisas e incorretas sob o ponto de vista conceitual
e estratégico, mascarando a sua real potencialidade de apoiar processos de
desenvolvimento rural. Por estes motivos, e sem ter a pretensão de fazer, neste
momento, qualquer aprofundamento teórico e/ou metodológico, nos parece
conveniente mencionar, objetivamente, como a Agroecologia vem sendo encarada
sob o ponto de vista acadêmico e o seu vínculo com a promoção do
desenvolvimento rural sustentável.
Com base em vários
estudiosos e pesquisadores nesta área (Altieri, Gliessman, Noorgard, Sevilla
Guzmán, Toledo, Leff), a Agroecologia tem sido reafirmada como uma ciência ou
disciplina científica, ou seja, um campo de conhecimento de caráter
multidisciplinar que apresenta uma série de princípios, conceitos e metodologias
que nos permitem estudar, analisar, dirigir, desenhar e avaliar agroecossistemas.
Os agroecossistemas são considerados como unidades fundamentais para o estudo e
planejamento das intervenções humanas em prol do desenvolvimento rural
sustentável. São nestas unidades geográficas e socioculturais que ocorrem os
ciclos minerais, as transformações energéticas, os processos biológicos e as
relações sócio-econômicas, constituindo o lócus onde se pode buscar uma análise
sistêmica e holística do conjunto destas relações e transformações. Sob o ponto
de vista da pesquisa Agroecológica, os primeiros objetivos não são a
maximização da produção de uma atividade particular, mas sim a otimização do
equilíbrio do agroecossistema como um todo, o que significa a necessidade de
uma maior ênfase no conhecimento, na análise e na interpretação das complexas
relações existentes entre as pessoas, os cultivos, o solo, a água e os animais.
Por esta razão, as pesquisas em laboratório ou em estações experimentais, ainda
que necessárias, não são suficientes pois, sem uma maior aproximação aos
diferentes agroecossistemas, elas não correspondem à realidade objetiva onde
seus achados serão aplicados e, tampouco, resguardam o enfoque ecossistêmico
desejado. São relações complexas deste tipo que alimentam a moderna noção de
sustentabilidade, tão importante aspecto a ser considerado na atual
encruzilhada em que se encontra a humanidade.
Em essência, o Enfoque
Agroecológico corresponde à aplicação de conceitos e princípios da Ecologia, da
Agronomia, da Sociologia, da Antropologia, da ciência da Comunicação, da
Economia Ecológica e de tantas outras áreas do conhecimento, no redesenho e no
manejo de agroecossistemas que queremos que sejam mais sustentáveis através do
tempo. Se trata de uma orientação cujas pretensões e contribuições vão mais
além de aspectos meramente tecnológicos ou agronômicos da produção
agropecuária, incorporando dimensões mais amplas e complexas que incluem tanto
variáveis econômicas, sociais e ecológicas, como variáveis culturais, políticas
e éticas. Assim entendida, a Agroecologia corresponde, como afirmamos antes, ao
campo de conhecimentos que proporciona as bases científicas para apoiar o
processo de transição do modelo de agricultura convencional para estilos de
agriculturas de base ecológica ou sustentáveis, assim como do modelo
convencional de desenvolvimento a processos de desenvolvimento rural
sustentável.
Suas bases epistemológicas
mostram que, historicamente, a evolução da cultura humana pode ser explicada com
referência ao meio ambiente, ao mesmo tempo em que a evolução do meio ambiente
pode ser explicada com referência à cultura humana. Ou seja: a) Os sistemas
biológicos e sociais têm potencial agrícola; b) este potencial foi captado
pelos agricultores tradicionais através de um processo e tentativa, erro,
aprendizado seletivo e cultural; c) os sistemas sociais e biológicos
co-evoluíram de tal maneira que a sustentação de cada um depende estruturalmente
do outro; d) a natureza do potencial dos sistemas social e biológico pode ser
melhor compreendida dado o nosso presente estado do conhecimento formal, social
e biológico, estudando-se como as culturas tradicionais captaram este
potencial; e) o conhecimento formal, social e biológico, o conhecimento obtido
do estudo dos sistemas agrários convencionais, o conhecimento de alguns insumos
desenvolvidos pelas ciências agrárias convencionais e a experiência com
instituições e tecnologias agrícolas ocidentais podem se unir para melhorar
tanto os agroecossistemas tradicionais como os modernos; f) o desenvolvimento
agrícola, através da Agroecologia, manterá mais opções culturais e biológicas
para o futuro e produzirá menor deterioração cultural, biológica e ambiental
que os enfoques das ciências convencionais por si sós (Norgaard, 1989).
Dentro desta perspectiva,
especialmente ao longo dos últimos 3 anos, o Rio Grande do Sul vem se
transformando em um estado onde existem referências concretas quanto ao
processo de transição agroecológica a partir da adoção dos princípios da
Agroecologia como base científica para orientar esta transição a estilos de
agricultura e desenvolvimento rural sustentáveis. Não obstante, ainda que o
tema, como abordamos acima, tenha sido objeto de discussão em distintos eventos
realizados em todas as regiões do estado e esteja presente em vários textos e
documentos de ampla circulação, continuamos a observar que segue existindo um
uso equivocado do termo Agroecologia e de seu significado.
Por este motivo, nos parece importante reforçar a noção de
Agroecologia que vem respaldando o processo de transição agroecológica em curso
com seu caráter ecossocial, como fazemos neste artigo de opinião. Na prática e
teoricamente, a Agroecologia precisa ser entendida como um enfoque científico,
uma ciência ou um conjunto de conhecimentos que nos ajuda tanto para a análise
crítica da agricultura convencional (no sentido da compreensão das razões da insustentabilidade
da agricultura da Revolução Verde), como também para orientar o correto
redesenho e o adequado manejo de agroecossistemas, na perspectiva da
sustentabilidade.
Assim sendo, o Enfoque
Agroecológico, como o estamos entendendo no Rio Grande do Sul, traz consigo as
ferramentas teóricas e metodológicas que nos auxiliam a considerar, de forma
holística e sistêmica, as seis dimensões da sustentabilidade, ou seja: a
Ecológica, a Econômica, a Social, a Cultural, a Política e a Ética (Caporal e
Costabeber, 2002). Partindo desta compreensão, repetimos que a Agroecologia não
pode ser confundida com um estilo de agricultura.
Também não pode ser confundida simplesmente com um conjunto de
práticas agrícolas ambientalmente amigáveis. Ainda que ofereça princípios para estabelecimento
de estilos de agricultura de base ecológica, não se pode confundir Agroecologia
com as várias denominações estabelecidas para identificar algumas correntes da
agricultura “ecológica”. Portanto, não se pode confundir Agroecologia com
“agricultura sem veneno” ou “agricultura orgânica”, por exemplo, até porque
estas nem sempre tratam de enfrentar-se aos problemas presentes em todas as
dimensões da sustentabilidade.
Estas são considerações que
julgamos ser de suma importância quando se almeja promover a construção de
processos de desenvolvimento rural sustentável, orientados pelo imperativo
socioambiental, com participação e equidade social, como já nos referimos em
outro texto (Caporal e Costabeber, 2000; 2001).
Referência bibliográficas
CAPORAL, F. R.; COSTABEBER, J. A. Agroecologia e desenvolvimento
rural
sustentável: perspectivas para uma nova Extensão Rural. Agroecologia e
Desenvolvimento
Rural Sustentável, v.1, n.1, p.16-37, jan./mar. 2000.
CAPORAL, F. R.; COSTABEBER, J. A. Agroecologia e desenvolvimento
rural
sustentável: perspectivas para uma nova Extensão Rural. In: Etges,
Virgínia
Elisabeta (org.). Desenvolvimento
rural: potencialidades em questão. Santa
Cruz do Sul: EDUSC, 2001; p.19-52.
CAPORAL, F. R.; COSTABEBER, J. A. Agroecologia: enfoque científico
e
estratégico. Agroecologia
e Desenvolvimento Rural Sustentável, v.3, n.2, p.13-
16, abr./mai. 2002.
CAPORAL, F. R.; COSTABEBER, J. A. Agroecologia: enfoque
científico e
estratégico para apoiar o desenvolvimento rural sustentável. Porto
Alegre
EMATER/RS, 2002. 54p. (Série Programa de Formaão Técnico-Social da
EMATER/RS. Sustentabilidade e Cidadania, texto, 5).
CAPORAL, F. R.; COSTABEBER, J. A. Análise multidimensional da sustentabilidade:
uma proposta metodológica a partir da Agroecologia.
Agroecologia e Desenvolvimento Rural Sustentável, Porto Alegre, v.3, n.3, p.70-85, jul./set. 2002.
NORGAARD, R. B. A base epistemológica da Agroecologia. In:
ALTIERI, M. A.(ed.). Agroecologia:
as bases científicas da agricultura alternativa. Rio de Janeiro: PTA/FASE, 1989. p.42-48.
Empreendedorismo Sustentável
Empreendedorismo
Sustentável
O empreendedor
Sempre
que alguém fala sobre empreendedorismo, a imagem na cabeça de muitos é de
pessoas que criam suas próprias empresas. Embora o conceito possa acomodar
parcialmente essa imagem, prefiro trabalhar com um significado diferente. Para
mim, empreendedorismo nada mais é do que a força do fazer acontecer. O
empreendedor seria, nessa concepção, a pessoa capaz de gerar resultados
efetivos em qualquer área da atividade humana.
- Nessa definição, muitas donas de casa são
empreendedoras: não obstante grandes desafios e muitas dificuldades, fazem
tudo funcionar e a família evolui. Há porém donas de casa incapazes de
fazer acontecer. E os resultados obviamente são ruins;
- Há funcionários empreendedores. E outros que não
são. Há até chefes e executivos empreendedores e outros não. Isso tanto
nas empresas como em governos e até nas organizações da sociedade civil;
- Há cidadãos empreendedores. Outros, não;
- Há crianças e jovens que fazem acontecer nos estudos
e até nos esportes e nas brincadeiras. E há também os que não conseguem;
- Há ainda as pessoas idosas que até os últimos dias
fazem acontecer. Outras, não;
É
interessante contrastar a figura do empreendedor com uma outra – muito comum em
nossa sociedade: a das pessoas que falam muito, criticam, têm idéias, boas até,
mas param por aí. Sequer parecem preocupadas com a efetiva implantação das
idéias que têm ou com a solução do que criticam. Às vezes até têm essa
preocupação, mas parecem considerar que esse é um detalhe que cabe a outros
cuidar. Como se fosse algo de “outro departamento”.
Por
outro lado, há empreendedores que fazem acontecer. Com grande força. Mas fazem
sem pensar. Sem pensar se há outras coisas mais essenciais a fazer. Coisas que
talvez sejam mais úteis à sociedade e às futuras gerações. São pessoas que, se
pensassem melhor sobre como o todo funciona, não fariam o que fazem. Estariam
contribuindo de forma diferente. Talvez até de forma muito diferente.
Há
ainda empreendedores de grande talento que não só trabalham em atividades pouco
relevantes à sociedade mas até prejudiciais a ela. São os que usam suas
competências, por exemplo, em ramos altamente poluentes ou fabricando produtos
que afetam a saúde das pessoas etc. O extremo desse espectro está nas pessoas
que atuam em ramos sérios, mas de forma não-ética ou que até vêem no crime um
“negócio” altamente lucrativo.
Sustentabilidade
A
sustentabilidade, por seu lado, tem na sua base um jeito de viver capaz de
assegurar continuidade da vida para todos. Sustentabilidade pressupõe
solidariedade, uma forte consciência do coletivo e ética em seu sentido mais
elevado: a busca do bem comum.
Sustentabilidade
significa – em essência – um jeito de viver em seu todo que permite as melhores
condições de vida para todos (sem exceção, sem qualquer tipo de exclusão) a
cada momento.
Sustentabilidade
significa vida equilibrada hoje. Um modo de viver saudável em que ninguém viva
às expensas da vida de outros (sem situações em que alguns têm, por exemplo,
excesso de comida e outros nada têm). Para os que nada têm, a vida não é
sustentável.
Sustentabilidade
significa também um modo de vida no todo da sociedade que leve em conta as
futuras gerações.
De
um lado, um modo de vida, que já não seja sustentável no curto prazo, só leva à
deterioração a longo prazo (a não ser que seja algo estratégico, muito bem
planejado, que exija sacrifícios hoje para colheita de benefícios para todos
amanhã – algo dificílimo de ser feito, porque os que têm muito hoje resistirão
em abrir mão de suas vantagens quando chegar a hora da colheita, no futuro).
Por
outro lado, mesmo que o modo de vida seja equilibrado hoje (o que não é o caso,
obviamente) pode-se estar “sacando contra o futuro” para assegurar esse
equilíbrio no curto prazo. E não teríamos sustentabilidade a longo prazo…
O que significa então “empreendedorismo sustentável”?
De
forma muito simples, significa um fazer acontecer que leve em conta o todo a
curto, médio e longo prazos. Por um ângulo, a expressão se contrapõe ao
conceito de “empreendedorismo egoísta”, dos que buscam vantagens só para si e
muitas vezes a qualquer custo. De outro, a expressão se contrapõe ao conceito
de “empreendedorismo não-consciente”, aquele que produz um modo de vida
não-sustentável, um jeito de viver destrutivo que gera desequilíbrios de toda
natureza.
Neste
ponto da reflexão, a questão-chave parece óbvia: de que forma o
empreendedorismo sustentável pode ajudar a desenvolver o Brasil? Até que ponto
esse conceito é algo fundamental à “gestão estratégica” de nosso país e das
comunidades que o compõem?
O
que mais precisamos em nosso país é da força do fazer acontecer. Mas de um
fazer acontecer consciente. Para isso, primeiro precisamos transmutar a energia
desperdiçada (em críticas/análises/diagnósticos, em atividades meio que
burocratizam tudo ao nosso redor, em processos para burlar as leis e buscar
vantagens para poucos) em energia que leve à sustentabilidade e ao bem comum.
Em segundo lugar, precisamos focar toda essa energia nas coisas “certas”.
Em que aplicar essa força empreendedora?
Apenas
parar de usar a força do fazer acontecer em atividades não-éticas e em
atividades predatórias já seria um grande progresso. Mas é preciso muito mais
do que isso. É preciso assegurar que a força empreendedora da sociedade seja
muito bem utilizada em prol do bem comum.
Mas
como os empreendedores que estão a fim de trabalhar para si e para o todo
deveriam atuar?
Em
essência. toda a força empreendedora deveria ser aplicada para atender às
necessidades da sociedade. A melhor imagem aqui é a de todas as pessoas da
sociedade estarem aplicando sua força de fazer acontecer para ajudar a atender
o conjunto de necessidades que existem na própria sociedade. E já vimos que a
força do fazer acontecer está presente em todos, da dona de casa ao
trabalhador, aos funcionários e executivos de empresas, dos governos e da
sociedade civil.
Atender
necessidades sociais? Não. Não somente. Necessidades num sentido amplo. No
sentido de todas as necessidades. Daí a expressão “necessidades da sociedade”.
Ao
pensarmos sobre as necessidades totais da sociedade (que são muitas)
imediatamente deparamos com um enorme paradoxo. É o paradoxo de termos de um
lado muitas necessidades e de outro desemprego (ou seja, pessoas sem o que
fazer). A existência desse paradoxo é também um atestado de ineficácia em
gestão. Ineficácia de quem? De um lado, dos governos; de outro, dos empresários
que não criam empresas voltadas ao atendimento das necessidades existentes (e
preferem até trabalhar com o supérfluo em mercados altamente congestionados).
De outro, ainda, de todas as pessoas que têm competência em fazer acontecer e
decidem não usá-la para o atendimento das necessidades da sociedade (por achar
que são de responsabilidade do governo, de outras empresas e instituições,
enfim, “dos outros”).
Mas
como, então, eliminar esse paradoxo? O fundamental para eliminá-lo é colocar
uma megaequação para a sociedade como um todo:
"Como
assegurar processos criativos de gestão altamente integrativa (capaz de incluir
todos os membros da sociedade, sem qualquer tipo de exclusão) que façam com que
todas as necessidades da sociedade sejam atendidas de forma altamente eficaz,
contando com o trabalho de todos os seus membros (ou seja, todos ajudando a
atender às necessidades, portanto, com zero de ‘desemprego’)?"
Na
medida em que a sociedade como um todo, em conjunto, buscar resolver essa
equação de forma inovadora/criativa estaremos dando verdadeiros saltos de
patamar em todos os campos (no social, no econômico etc.)
Gestão
eficaz da sociedade, portanto, significa a criação de um contexto em que todos
na sociedade estão sendo úteis para garantir o básico para todos na sociedade,
ou seja, que todas as necessidades estejam sendo atendidas, o tempo todo, de
forma sustentável.
E como resolver essa megaequação?
Primeiro,
ousar colocar essa equação na mesa para que a sociedade como um todo possa usar
sua capacidade criativa na busca de soluções pragmáticas, inovadoras, de forma
natural, contínua, sustentável. Isso traria foco ao processo como um todo.
Segundo,
fazer – com a participação da sociedade – um “mapeamento” completo das
necessidades da sociedade (das meganecessidades às menores).
Terceiro,
criar um tipo de “câmara de compensação” em que, coletivamente (e
criativamente), busca-se fazer com que a cada conjunto de necessidades haja uma
adequada alocação de energia humana. A premissa aqui é que, se fizermos um bom
trabalho nesta câmara de compensação, não teremos ninguém parado (zero de
desemprego, zero de empreendedores/empresas fazendo coisas inúteis, ou seja,
não- vinculadas às necessidades que queremos atender) e a sociedade como um
todo estará evoluindo de forma saudável em todos os setores e em todas as
áreas. E assim por diante.
Essa
é a idéia central de um tipo de gestão – pública e privada – muito diferente do
que vemos nas sociedades em geral.
No
próximo artigo, estarei refletindo sobre duas outras questões relacionadas à
essência desse novo tipo de gestão em relação àquele – já há muito superado –
que ainda prevalece hoje: 1) as causas prováveis das distorções do sistema de
gestão em uso hoje; 2) os novos papéis que as várias instituições da sociedade
– governo, empresas, sociedade civil – deverão ter nesse novo tipo de
democracia participativa que precisamos urgentemente implantar em nosso país.
Os significados da sustentabilidade empresarial para o consumidor
Os
significados da sustentabilidade empresarial para o consumidor

No momento em que líderes do mundo inteiro se reúnem para
discutir o desenvolvimento sustentável, alguns questionamentos emergem como
primordiais ao debate: até que ponto falamos a mesma língua quando nos
referimos ao termo sustentabilidade? No que tange especificamente ao mundo dos
negócios, o que os consumidores entendem por atuação sustentável das empresas?
Na perspectiva da demanda, existe convergência entre as formas de definir e de
mensurar a sustentabilidade empresarial?
Para
as empresas, compreender o que os consumidores entendem por atuação sustentável
é essencial para o sucesso das políticas de sustentabilidade.
Afinal,
de nada adiantará o exercício de incorporar a sustentabilidade como princípio
norteador da gestão se a mensagem transmitida não é legível ao consumidor. Ou,
tão preocupante quanto, se as principais frentes de atuação escolhidas pelos
gestores dialogam pouco com as maiores expectativas da demanda.
Considerando
que grande parte das corporações brasileiras opera não apenas no território
nacional, é também importante analisar as diferenças de percepção entre os
diversos mercados.
Tomando-se
como exemplo uma empresa nacional, engajada em diversas frentes de atuação
sustentável, cujos consumidores estão no Brasil e em outros países, seria
possível utilizar apenas uma tática de comunicação da política de
sustentabilidade da organização? Provavelmente não.
A
menos que haja um consenso quanto ao que se espera de uma empresa sustentável
entre brasileiros e estrangeiros, o que é extremamente raro, a comunicação
necessita adequar-se à cultura de cada mercado.
Como
pré-requisito para pensar na adequação da comunicação sobre sustentabilidade
empresarial à forma como os consumidores enxergam e aos seus focos de
expectativas, as empresas precisam de uma atuação sustentável multifacetada. É
justamente essa diversidade de ações que ajudará os comunicadores a ajustar as
mensagens veiculadas de acordo com as necessidades de cada mercado. Mas isso
não pode implicar uma perda de identidade empresarial, conflito de princípios
organizacionais ou – uma decorrência natural quando as iniciativas batem de
frente com a percepção daquilo que a empresa deveria priorizar em função do seu
impacto – o aumento do ceticismo da demanda.
Desde
2001, o Monitor de Sustentabilidade Corporativa da Market Analysis contribui
para o alinhamento das políticas de atuação sustentável das empresas com as
percepções, opiniões e comportamentos dos consumidores. Neste Dossiê
Verde, discorremos sobre uma das principais investigações do MSC
2012: as formas pelas quais os consumidores definem o tema da
sustentabilidade empresarial e quais parâmetros a demanda utiliza para mensurar
a atuação sustentável.
Critérios
utilizados pelos consumidores para definir sustentabilidade empresarial
Como
o consumidor brasileiro define a atuação sustentável das empresas? Até que
ponto os mercados estrangeiros convergem com o nacional?
Ao
redor do mundo, cinco formas de definir a sustentabilidade empresarial
predominam: preservação ambiental, políticas internas, qualidade de
produtos e serviços, contribuição à economia nacional e ética.
No
Brasil, a sustentabilidade corporativa é sinônimo de preservação ambiental, uma
visão compartilhada por outros três grandes mercados: Canadá, Índia e
Austrália.
Com
certeza não se trata da única definição dos brasileiros sobre o tema nem que
seja conceituada assim para todos os setores da economia por igual, mas
representa a que congrega um número maior de opiniões entre os consumidores.
Já
o conceito de uma empresa sustentável como aquela que implementa boas práticas
de políticas internas predomina entre estadunidenses, franceses, alemães,
britânicos e russos, além de mexicanos, peruanos e chilenos.
O
quanto a corporação contribui para a economia nacional é o foco dos africanos,
espanhóis, gregos, indonésios e sul-coreanos. Já os chineses e paquistaneses
definem a partir dos produtos e serviços, enquanto argentinos e turcos se
voltam para a ética.
Em
termos de geografia e de blocos econômicos, apenas duas convergências de
destaque quanto à forma de definir sustentabilidade empresarial: 1) os africanos
entendem a atuação sustentável das empresas a partir do quanto elas contribuem
para as economias nacionais, uma evidência de que esses consumidores enxergam
as corporações como protagonistas do desenvolvimento do continente; 2) os
europeus se baseiam essencialmente no tema do trabalho e da geração de renda,
seja através da ênfase na qualidade de vida proporcionada aos colaboradores,
como na Alemanha, França, Reino Unido e Rússia, ou por meio do quanto as
empresas agregam valor à economia, como na Grécia e na Espanha.
Ao
aprofundar-se sobre a conceituação brasileira,
percebe-se que os consumidores utilizam principalmente duas
referências para
definir sustentabilidade corporativa:preservação ambiental (39%) e ações sociais (27%). Juntas, essas frentes de
atuação representam 66% da definição de empresa sustentável.
Com peso moderado, surgem as políticas internas (15%) e a contribuição à
economia nacional (8%). Por fim, aparecem, com pouca saliência, a governança
corporativa (3%), a qualidade dos produtos e serviços (2%), o patrocínio
esportivo (1%) e a gestão e imagem (1%).
Ao
se observar o principal patamar da definição dos consumidores brasileiros,
formado pela preservação ambiental em primeiro lugar e pelas ações sociais em
segundo, poderia se supor que há uma forte alusão aos temas centrais da Rio+20,
economia verde e erradicação da pobreza, respectivamente.
Contudo,
a ideia de uma proposta macroeconômica que possua como princípio norteador o
desenvolvimento da nação associado à manutenção dos ecossistemas e dos recursos
naturais ainda permanece fora do radar de compreensão dos brasileiros,
principalmente porque o público não consegue conectar os pontos, isto é, formar
uma visão sistêmica sobre a sustentabilidade, premissa básica para assimilar o
conceito de economia verde.
Ainda, esta
visão que privilegia apenas dois terços do triple bottom line pode acarretar dificuldades na hora de
compreender os impactos socioambientais de projetos que prezem pela alavancagem
econômica, tais como o Pré-Sal.
De
outra parte, as ações sociais sugeridas pela demanda remetem muito mais à
ampliação da disponibilidade de serviços básicos ao cidadão, como saúde,
educação e moradia, do que à ideia de erradicar a pobreza do Brasil ou do
mundo. Talvez pelo bom momento econômico que o país tem vivido nos últimos
anos, a pobreza sensibiliza menos os brasileiros hoje em dia do que no passado.
A
definição de empresa sustentável no Brasil tem se ancorado cada vez mais no pilar
ambiental: se, em 2005, 9% do público indicava a preservação do
meio ambiente como principal ação de sustentabilidade corporativa, hoje essa fatia já representa 39% dos brasileiros. De 2005 a 2010, as
ações sociais ganharam força, formando uma díade conceitual composta pelos
pilares da sociedade e do meio ambiente. Contudo, desde 2010, o pilar social
perdeu terreno e hoje a tendência é a de uma única frente dominante de
definição.
Além
da tendência de predominância da preservação ambiental como sinônimo de
sustentabilidade empresarial no Brasil e da perda de saliência das ações
sociais, o brasileiro também dá outros sinais de mudança na forma de definir o
tema: a) um dos pilares mais fortes nas definições ao redor do mundo, as políticas
internas voltam a ganhar espaço no Brasil, desde 2010; b) a
contribuição à economia nacional não parece mais ter forças como um atributo
determinante de atuação sustentável, como tinha até 2008, uma vez que após
grande queda, em 2010, estabilizou-se desde então; c) de forma distinta do que
ocorre nas discussões entre especialistas sobre sustentabilidade, os temas da governança
corporativa, da gestão e da qualidade se tornam cada vez mais secundários na
definição dos consumidores brasileiros.
Seria possível
imaginar que a qualidade dos produtos, bastante tangível
aos consumidores, desempenhasse o papel de protagonista na hora de identificar
o que uma empresa sustentável de fato faz. No entanto, o que se observa, na
prática, é uma queda do peso desse atributo, desde 2005,
quando chegou a ser citado por 11% do público e hoje reflete a opinião de uma
pequena minoria (2%). Trata-se de um retrato da desvinculação, em grande medida
prejudicial ao movimento de sustentabilidade corporativa no Brasil, entre
atuação sustentável da empresa como um todo e a avaliação da qualidade
(inclusive se sustentável ou não) do produto. Esse quadro também revela a falta
de conexão na mente dos consumidores entre a atuação ambiental das empresas e o
ciclo de vida dos produtos, uma vez que o atributo qualidade
surge desvinculado da cobrança por boa performance eco friendly.
Um
dos fatores determinantes na forma de definir sustentabilidade empresarial é o
grau de informação do consumidor brasileiro sobre o tema. Segmentamos o público
em dois grupos, os informados e os desinformados, e analisamos como cada um
define a atuação sustentável das empresas.
A
definição de atuação sustentável varia conforme o grau de exposição às
propagandas e notícias sobre o tema: a) entre os informados, o tamanho
da brecha entre a preservação ambiental e as ações sociais é muito maior do que
entre os desinformados; b)desinformados mencionam mais ações sociais e
contribuição à economia nacional. Esses resultados revelam um ponto crítico: o desafio
da comunicação e da educação para a sustentabilidade no Brasil é grande,
na medida em que se observa que a ideia de que “sustentável” equivale a
“eco-friendly” é ainda mais forte entre os informados.
Outra segmentação realizada revelou
mais uma peculiaridade brasileira: de um lado, os que definem sustentabilidade
a partir da preservação do meio ambiente; de outro, os que o fazem a partir de
ações sociais. Qual dos dois públicos é mais interessado?
Os consumidores que definem a atuação
sustentável empresarial como sinônimo de atuação proambiental estão
consideravelmente mais interessados do que os que o fazem como sinônimo de ação
social. De forma geral, o volume de interessados pelo tema no Brasil, neste
ano, é de 68%, mas essa fatia salta para 77% se tomarmos como foco de análise
apenas os que definem a partir do pilar ambiental, e cai para 59% quando se
considera apenas os que conceituam a partir das ações sociais.
Essa é uma prova de que as ações
ambientalmente amigáveis possuem um papel determinante na receptividade do
público brasileiro em relação ao assunto. A mensagem de que a sustentabilidade
empresarial envolve múltiplas frentes de atuação deve ser veiculada, porém não
é aconselhável negligenciar que o pilar ambiental alavanca o interesse dos
consumidores.
Esses
resultados indicam uma forte expectativa por mais e melhores projetos
ambientais, mas isso está longe de representar um convite aberto ao greenwashing.
Afinal, os mais informados são justamente os primeiros a descobrir tentativas
de maquiar ou forçar uma imagem verde sem respaldo. Para as empresas
oportunistas, o caminho da maquiagem verde pode até parecer promissor.
Porém, em um contexto de fluxo de informações intenso nas redes sociais, o qual
praticamente acompanha a velocidade da luz, o mais oportuno é ser transparente.
Analisando a convergência entre as
formas de definir e de mensurar a sustentabilidade empresarial
Se o consumidor brasileiro define a
atuação sustentável das empresas em primeiro lugar com base em ações de
preservação, em segundo de acordo com ações sociais e, em terceiro plano, a
partir do quanto a empresa oferece boas condições de trabalho para os seus
colaboradores, espera-se que esses mesmos critérios sejam usados no momento de
avaliar uma corporação em sustentabilidade.
Ainda, se apenas Brasil, Canadá, Índia
e Austrália colocam o pilar ambiental como principal eixo conceitual de
sustentabilidade empresarial, também se supõe que os brasileiros estejam acima
da média mundial em relação ao uso da atuação proambiental como critério de
julgamento da performance das empresas. Essas hipóteses se confirmam na
prática?

O
quanto uma empresa preserva o meio ambiente se constitui no principal driverde
apoio da atuação em sustentabilidade no mercado brasileiro. Esse é um
quadro restrito às fronteiras nacionais, uma vez que, ao redor do mundo, a
qualidade dos produtos e serviços, a gestão e imagem, e as ações sociais
possuem maior peso de impacto sobre a avaliação que os consumidores fazem
acerca da atuação sustentável das empresas.
Pode-se ainda afirmar que, entre os
brasileiros, o que uma corporação faz no pilar ambiental repercute na sua
avaliação tanto quanto o conjunto de ações sociais, políticas internas e
qualidade de produtos e serviços.
Esse resultado confirma ambas as
hipóteses descritas anteriormente: 1) o núcleo da definição brasileira
(preservação ambiental, ações sociais e políticas internas) se transforma na
principal plataforma de apoio das empresas tidas como melhores exemplos em
sustentabilidade; 2) o peso que os brasileiros atribuem ao pilar ambiental
supera em mais de quatro vezes a média mundial.
Até que ponto os critérios usados
pelos consumidores brasileiros para julgar a sustentabilidade das empresas se
assemelham aos encontrados entre os outros países do BRIC? Há mais diferenças
ou semelhanças entre emergentes e desenvolvidos?
O alinhamento entre Brasil, Rússia,
Índia e China se dá até certo ponto, e não permite falar em uma atitude
homogênea dos consumidores oriundos dos BRICs. Chineses, indianos e russos
apresentam certa convergência ao se alinhar à média mundial e utilizar como
principais parâmetros a qualidade dos produtos e serviços e a gestão das
empresas.
Na China, aliás, além de uma empresa
sustentável normalmente ser definida com base na qualidade dos seus produtos e
serviços, esse também é o atributo que mais determina o apoio aos bons
exemplos.
Na
Índia, como a empresa se comporta em termos de gestão e imagem constitui-se no
principal driver de apoio, apesar de a preservação
ambiental ser base de definição de corporação sustentável. Já na Rússia, a
qualidade dos produtos e a gestão possuem pesos equivalentes.
Entre os quatro países desenvolvidos
analisados, a divergência é considerável e bem maior do que a encontrada entre
os BRICs. Os franceses concordam em certa medida com os brasileiros ao utilizar
como parâmetro para avaliar a atuação sustentável o quanto as empresas
preservam o meio ambiente.
Na Alemanha, o principal foco está nas
políticas internas. Já no Reino Unido, a gestão e a imagem determinam mais o
apoio aos bons exemplos. Os estadunidenses, por sua vez, utilizam mais as ações
sociais como principal critério. O curioso é que, nos países desenvolvidos em
análise, à exceção da Alemanha, os consumidores não utilizam como parâmetro de
avaliação da atuação sustentável o seu principal conceito – as políticas
internas.
Isso provavelmente ocorre pela
dificuldade que parte da demanda enfrenta em observar como de fato as empresas
se relacionam com os seus colaboradores, fazendo com que seja necessário
utilizar outros parâmetros de avaliação mais acessíveis.
Esse
quadro diverso das plataformas de reputação sustentável ao redor do mundo
revela que as empresas do business to consumer (B2C) em escala internacional
necessitam de uma estratégia de sustentabilidade empresarial realmente
multifacetada.
Isso permite às organizações dialogar
com consumidores que possuem métricas distintas para avaliar a atuação
sustentável. Prova de que é arriscado apostar a maior parte dos investimentos
na preservação de uma mata nativa brasileira, por exemplo, alcançando boa
reputação na esfera nacional, e querer levar essa imagem de empresa sustentável
para outros mercados ao redor do mundo.
As empresas precisam estar alertas,
ainda, a mais um grande obstáculo na busca pelo alinhamento das políticas de
sustentabilidade com as demandas dos seus clientes: a brecha existente no
discurso dos consumidores entre a forma como o tema é definido e os critérios
utilizados na hora de julgar a atuação corporativa sustentável.
Se nem entre os formadores de opinião
sobre o assunto há convergência entre o conceito de sustentabilidade e a forma
de mensurar a atuação sustentável das empresas, a incoerência dos consumidores
pode ser considerada previsível.
Comparamos o cenário brasileiro com o
mundial quanto à relação entre formas de definir e de avaliar a atuação
sustentável. O tamanho da dissonância encontrada no Brasil é menor do que a
verificada ao redor do mundo: quanto mais o consumidor brasileiro se
utiliza de uma frente de atuação para definir o que é sustentabilidade
empresarial, mais ele tende a usar essa mesma frente como parâmetro de
avaliação de empresas.
Isso vale principalmente para
preservação ambiental, ações sociais e políticas internas. Apenas quanto à
contribuição da empresa para a economia nacional há uma discrepância entre o
uso dessa frente como sinônimo de atuação sustentável e a utilização como
parâmetro de avaliação: 8% dos consumidores a mencionam no momento de definir
sustentabilidade empresarial, mas ela não é utilizada como motivo de avaliação
positiva.
Ainda, aqui também fica evidente o
descompasso na mente dos consumidores brasileiros entre a cobrança por atuação
ambiental e por maior sustentabilidade da produção: enquanto a preservação da
natureza está no foco da demanda, a qualidade dos produtos é secundária.

O quadro global é razoavelmente
distinto.
Uma frente muito utilizada para definir
atuação sustentável não necessariamente é aproveitada quando se busca uma
avaliação da performance das empresas.
Com exceção das ações sociais,
bastante usadas tanto na definição como na avaliação, e do patrocínio esportivo
e cultural, pouco lembrado em ambas as dimensões em análise, todas as outras
frentes apresentam resultados dissonantes.
Essa dissonância entre as formas de
perceber e de avaliar a atuação sustentável é mais uma característica da
opinião pública sobre sustentabilidade empresarial.
Para as empresas inovadoras, há espaço
para ganhos futuros: na medida em que uma corporação consiga partir do mesmo
patamar conceitual da demanda e instrumentalizar o consumidor com indicadores
convergentes com o conceito predominante e que lhe sejam legíveis e tangíveis,
a redução dessa brecha pode ocorrer e trazer ganhos de reputação.
Os resultados do MSC ao longo da
última década demonstram que, quando os consumidores sabem identificar frentes
específicas de atuação, eles tendem a recompensar mais as empresas,
apontando-as como exemplos de sustentabilidade, comprando seus produtos e
divulgando uma imagem favorável nos círculos sociais.
O terreno das percepções dos
consumidores sobre sustentabilidade empresarial é realmente sinuoso. Contudo, a
opinião pública brasileira demonstra menor contradição em seu discurso quando
comparada ao resto do mundo, o que torna mais fácil a
comunicação e a educação para a sustentabilidade no Brasil. Para as empresas
que possuem consumidores em outros países, o desafio é o da adequação do foco
da comunicação, mas para isso é preciso haver uma atuação sólida e
multidimensional que subsidie tal estratégia.
Para
que as mensagens veiculadas não sejam encaradas como oportunistas pelos
consumidores, um dos melhores caminhos é o da comunicação de projetos
específicos, de preferência com resultados tangíveis.Essa tática melhora a receptividade,
diminui o ceticismo, alavanca a reputação sustentável e favorece as recompensas
em termos de compra e de propaganda boca a boca.
Na comunicação para a sustentabilidade
junto ao público brasileiro, a atuação ambiental sensibiliza como nunca. A
projeção é a de que a predominância desse pilar aumente no próximo ano,
considerando que 2012 é o momento da Rio+20. Trata-se de uma oportunidade ímpar
para as corporações ampliarem o engajamento com o desenvolvimento sustentável,
enfrentando a pendência da educação sobre o caráter sistêmico da
sustentabilidade.
As empresas têm grande potencial e
alcance de comunicação, podendo se comprometer com a informação sobre a relação
entre aspectos econômicos e ambientais, por exemplo, e favorecendo, assim, a
proposta de uma economia verde.
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