Conceitos de
Agroecologia
Considera-se Agroecologia
como Ciência ou campo de conhecimentos de natureza multidisciplinar, cujos
ensinamentos pretendem contribuir na construção de estilos de agricultura de
base ecológica e na elaboração de estratégias de desenvolvimento rural,
tendo-se como referência os ideais da sustentabilidade numa perspectiva
multidimensional. Adiante destacamos três sínteses conceituais de
renomados Agroecólogos (Altieri, Gliessman, Sevilla Guzmán), seguidas de um
artigo de opinião, com o objetivo de colocar ênfase na natureza científica da
Agroecologia.
1. Agroecologia
Miguel A. Altieri (Universidade da
Califórnia, Campus de Berkley, EUA)
É a ciência ou a disciplina
científica que apresenta uma série de princípios, conceitos e metodologias para
estudar, analisar, dirigir, desenhar e avaliar agroecossistemas, com o
propósito de permitir a implantação e o desenvolvimento de estilos de
agricultura com maiores níveis de sustentabilidade. A Agroecologia proporciona
então as bases científicas para apoiar o processo de transição para uma
agricultura “sustentável” nas suas diversas manifestações e/ou denominações.
2. Enfoque agroecológico
Stephen
R. Gliessman (Universidade da Califórnia, Campus de Santa Cruz, EUA)
O
enfoque agroecológico corresponde a aplicação dos conceitos e princípios da Ecologia
no manejo e desenho de agroecossistemas sustentáveis.
3. Agroecologia e desenvolvimento rural
Eduardo Sevilla Guzmán (Universidade de Córdoba – Espanha)
Agroecologia constitui o
campo do conhecimentos que promove o “manejo ecológico dos recursos naturais,
através de formas de ação social coletiva que apresentam alternativas à atual
crise de Modernidade, mediante propostas de desenvolvimento participativo desde
os âmbitos da produção e da circulação alternativa de seus produtos,
pretendendo estabelecer formas de produção e de consumo que contribuam para
encarar a crise ecológica e social e, deste modo, restaurar o curso alterado da
coevolução social e ecológica. Sua estratégia tem uma natureza sistêmica, ao
considerar a propriedade, a organização comunitária e o restante dos marcos de
relação das sociedades rurais articulados em torno à dimensão local, onde se
encontram os sistemas de conhecimento portadores do potencial endógeno e
sociocultural. Tal diversidade é o ponto de partida de suas agriculturas
alternativas, a partir das quais se pretende o desenho participativo de métodos
de desenvolvimento endógeno para estabelecer dinâmicas de transformação em
direção a sociedades sustentáveis”.
4. Agroecologia: enfoque científico e estratégico (1)
Francisco Roberto Caporal (2); José Antônio Costabeber (3)
De algum tempo para cá, quase
todos nós temos lido, ouvido, falado e opinado sobre Agroecologia. As
orientações daí resultantes têm sido muito positivas, porque a referência à
Agroecologia nos faz lembrar de uma agricultura menos agressiva ao meio
ambiente, que promove a inclusão social e proporciona melhores condições
econômicas para os agricultores de nosso estado. Não apenas isto, mas também
temos vinculado a Agroecologia à oferta de produtos “limpos”, ecológicos,
isentos de resíduos químicos, em oposição àqueles característicos da Revolução
Verde. Portanto, a Agroecologia nos traz a idéia e a expectativa de uma nova
agricultura, capaz de fazer bem aos homens e ao meio ambiente como um todo,
afastando-nos da orientação dominante de uma agricultura intensiva em capital,
energia e recursos naturais não renováveis, agressiva ao meio ambiente,
excludente do ponto de vista social e causadora de dependência econômica.ar Títulos Programa
Por outro lado, e isto é
importante que se diga, o entendimento do que é a Agroecologia e onde queremos
e podemos chegar com ela não está claro para muitos de nós ou, pelo menos,
temos tido interpretações conceituais diversas que, em muitos casos, acabam nos
prejudicando ou nos confundindo em relação aos propósitos, objetivos e metas do
trabalho que todos estamos empenhados em realizar. Apenas para dar alguns
exemplos do mau uso do termo, não raras vezes tem-se confundido a Agroecologia
com um modelo de agricultura, com um produto ecológico, com uma prática ou
tecnologia agrícola e, inclusive, com uma política pública. Isso, além de
constituir um enorme reducionismo do seu significado mais amplo, atribui à
Agroecologia definições que são imprecisas e incorretas sob o ponto de vista conceitual
e estratégico, mascarando a sua real potencialidade de apoiar processos de
desenvolvimento rural. Por estes motivos, e sem ter a pretensão de fazer, neste
momento, qualquer aprofundamento teórico e/ou metodológico, nos parece
conveniente mencionar, objetivamente, como a Agroecologia vem sendo encarada
sob o ponto de vista acadêmico e o seu vínculo com a promoção do
desenvolvimento rural sustentável.
Com base em vários
estudiosos e pesquisadores nesta área (Altieri, Gliessman, Noorgard, Sevilla
Guzmán, Toledo, Leff), a Agroecologia tem sido reafirmada como uma ciência ou
disciplina científica, ou seja, um campo de conhecimento de caráter
multidisciplinar que apresenta uma série de princípios, conceitos e metodologias
que nos permitem estudar, analisar, dirigir, desenhar e avaliar agroecossistemas.
Os agroecossistemas são considerados como unidades fundamentais para o estudo e
planejamento das intervenções humanas em prol do desenvolvimento rural
sustentável. São nestas unidades geográficas e socioculturais que ocorrem os
ciclos minerais, as transformações energéticas, os processos biológicos e as
relações sócio-econômicas, constituindo o lócus onde se pode buscar uma análise
sistêmica e holística do conjunto destas relações e transformações. Sob o ponto
de vista da pesquisa Agroecológica, os primeiros objetivos não são a
maximização da produção de uma atividade particular, mas sim a otimização do
equilíbrio do agroecossistema como um todo, o que significa a necessidade de
uma maior ênfase no conhecimento, na análise e na interpretação das complexas
relações existentes entre as pessoas, os cultivos, o solo, a água e os animais.
Por esta razão, as pesquisas em laboratório ou em estações experimentais, ainda
que necessárias, não são suficientes pois, sem uma maior aproximação aos
diferentes agroecossistemas, elas não correspondem à realidade objetiva onde
seus achados serão aplicados e, tampouco, resguardam o enfoque ecossistêmico
desejado. São relações complexas deste tipo que alimentam a moderna noção de
sustentabilidade, tão importante aspecto a ser considerado na atual
encruzilhada em que se encontra a humanidade.
Em essência, o Enfoque
Agroecológico corresponde à aplicação de conceitos e princípios da Ecologia, da
Agronomia, da Sociologia, da Antropologia, da ciência da Comunicação, da
Economia Ecológica e de tantas outras áreas do conhecimento, no redesenho e no
manejo de agroecossistemas que queremos que sejam mais sustentáveis através do
tempo. Se trata de uma orientação cujas pretensões e contribuições vão mais
além de aspectos meramente tecnológicos ou agronômicos da produção
agropecuária, incorporando dimensões mais amplas e complexas que incluem tanto
variáveis econômicas, sociais e ecológicas, como variáveis culturais, políticas
e éticas. Assim entendida, a Agroecologia corresponde, como afirmamos antes, ao
campo de conhecimentos que proporciona as bases científicas para apoiar o
processo de transição do modelo de agricultura convencional para estilos de
agriculturas de base ecológica ou sustentáveis, assim como do modelo
convencional de desenvolvimento a processos de desenvolvimento rural
sustentável.
Suas bases epistemológicas
mostram que, historicamente, a evolução da cultura humana pode ser explicada com
referência ao meio ambiente, ao mesmo tempo em que a evolução do meio ambiente
pode ser explicada com referência à cultura humana. Ou seja: a) Os sistemas
biológicos e sociais têm potencial agrícola; b) este potencial foi captado
pelos agricultores tradicionais através de um processo e tentativa, erro,
aprendizado seletivo e cultural; c) os sistemas sociais e biológicos
co-evoluíram de tal maneira que a sustentação de cada um depende estruturalmente
do outro; d) a natureza do potencial dos sistemas social e biológico pode ser
melhor compreendida dado o nosso presente estado do conhecimento formal, social
e biológico, estudando-se como as culturas tradicionais captaram este
potencial; e) o conhecimento formal, social e biológico, o conhecimento obtido
do estudo dos sistemas agrários convencionais, o conhecimento de alguns insumos
desenvolvidos pelas ciências agrárias convencionais e a experiência com
instituições e tecnologias agrícolas ocidentais podem se unir para melhorar
tanto os agroecossistemas tradicionais como os modernos; f) o desenvolvimento
agrícola, através da Agroecologia, manterá mais opções culturais e biológicas
para o futuro e produzirá menor deterioração cultural, biológica e ambiental
que os enfoques das ciências convencionais por si sós (Norgaard, 1989).
Dentro desta perspectiva,
especialmente ao longo dos últimos 3 anos, o Rio Grande do Sul vem se
transformando em um estado onde existem referências concretas quanto ao
processo de transição agroecológica a partir da adoção dos princípios da
Agroecologia como base científica para orientar esta transição a estilos de
agricultura e desenvolvimento rural sustentáveis. Não obstante, ainda que o
tema, como abordamos acima, tenha sido objeto de discussão em distintos eventos
realizados em todas as regiões do estado e esteja presente em vários textos e
documentos de ampla circulação, continuamos a observar que segue existindo um
uso equivocado do termo Agroecologia e de seu significado.
Por este motivo, nos parece importante reforçar a noção de
Agroecologia que vem respaldando o processo de transição agroecológica em curso
com seu caráter ecossocial, como fazemos neste artigo de opinião. Na prática e
teoricamente, a Agroecologia precisa ser entendida como um enfoque científico,
uma ciência ou um conjunto de conhecimentos que nos ajuda tanto para a análise
crítica da agricultura convencional (no sentido da compreensão das razões da insustentabilidade
da agricultura da Revolução Verde), como também para orientar o correto
redesenho e o adequado manejo de agroecossistemas, na perspectiva da
sustentabilidade.
Assim sendo, o Enfoque
Agroecológico, como o estamos entendendo no Rio Grande do Sul, traz consigo as
ferramentas teóricas e metodológicas que nos auxiliam a considerar, de forma
holística e sistêmica, as seis dimensões da sustentabilidade, ou seja: a
Ecológica, a Econômica, a Social, a Cultural, a Política e a Ética (Caporal e
Costabeber, 2002). Partindo desta compreensão, repetimos que a Agroecologia não
pode ser confundida com um estilo de agricultura.
Também não pode ser confundida simplesmente com um conjunto de
práticas agrícolas ambientalmente amigáveis. Ainda que ofereça princípios para estabelecimento
de estilos de agricultura de base ecológica, não se pode confundir Agroecologia
com as várias denominações estabelecidas para identificar algumas correntes da
agricultura “ecológica”. Portanto, não se pode confundir Agroecologia com
“agricultura sem veneno” ou “agricultura orgânica”, por exemplo, até porque
estas nem sempre tratam de enfrentar-se aos problemas presentes em todas as
dimensões da sustentabilidade.
Estas são considerações que
julgamos ser de suma importância quando se almeja promover a construção de
processos de desenvolvimento rural sustentável, orientados pelo imperativo
socioambiental, com participação e equidade social, como já nos referimos em
outro texto (Caporal e Costabeber, 2000; 2001).
Referência bibliográficas
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sustentável: perspectivas para uma nova Extensão Rural. Agroecologia e
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CAPORAL, F. R.; COSTABEBER, J. A. Agroecologia e desenvolvimento
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CAPORAL, F. R.; COSTABEBER, J. A. Agroecologia: enfoque científico
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CAPORAL, F. R.; COSTABEBER, J. A. Análise multidimensional da sustentabilidade:
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Agroecologia e Desenvolvimento Rural Sustentável, Porto Alegre, v.3, n.3, p.70-85, jul./set. 2002.
NORGAARD, R. B. A base epistemológica da Agroecologia. In:
ALTIERI, M. A.(ed.). Agroecologia:
as bases científicas da agricultura alternativa. Rio de Janeiro: PTA/FASE, 1989. p.42-48.